A Feicana Feibio 2010 – feira da cadeia da cana de açúcar – foi aberta oficialmente na tarde desta terça-feira (09/03) em Araçatuba, SP, e deve receber 25 mil visitantes e gerar negócios da ordem de R$ 1 bilhão até o próximo dia 11. A estimativa é da União dos Produtores de Bioenergia (Udop), que organiza o evento. “O setor tem grande necessidade de investimento. É preciso aumentar o corte mecânico e trazer tecnologia para o campo, não só para a área industrial. Estamos num momento de indecisão, com fusões e aquisições acontecendo e a feira é uma oportunidade para quem quer se posicionar no mercado”, diz Jose Carlos Toledo, presidente da Udop.
A feira de negócios acontece num bom momento para o setor de energia, que começa a superar a crise financeira vivenciada a partir da crise econômica mundial deflagrada em outubro de 2008, que afetou seriamente o segmento. “Depois de uma grande expansão registrada entre 2006 e 2008 a crise de liquidez afetou seriamente a cadeia em 2009”, lembra Guilherme Nastari, economista da empresa de consultoria Datragro. Com isso, muitos grupos que estavam alavancados – com financiamentos em dólar – tiveram dificuldades em honrar compromissos inclusive com os fornecedores de matéria-prima.
Tal cenário provocou ao longo de 2010 uma série de movimentos de fusões e aquisições. “Há uma tendência de concentração no setor, que começou com as fusões entre empresas tradicionais do segmento, ganhou corpo com o interesse de grandes tradings, como ADM, Louis Dreyfus, Cargill e Bunge, pelo negócio sulcroalcooleiro, e continua com o ingresso de empresas de energia e de petróleo na área”, avalia Nastari que participou do III Seminário Internacional da Datragro, realizado durante a feira.
Após um período conturbado, tanto pelos problemas financeiros como pelas adversidades climáticas que atingiram o setor (o excesso de chuvas impediu a colheita de mais de 50 milhões de toneladas de açúcar em 2009), a safra de 2010/2011 foi antecipada em 45 dias e promete ser melhor que a do ano passado. Agora, além da perspectiva de aumento da produção de cana, açúcar e etanol, há previsão de preços bons para o açúcar e também para o etanol. O mercado para o primeiro vivenciará um ano de oferta reduzida e demanda em alta; já o combustível será sustentado pela frota brasileira de veículos flex. “O desafio será expandir o etanol brasileiro para fora do país”, diz Nastari. Se depender do ânimo da cadeia para realizar negócios durante a Feicana, a expansão é certa.
Quase dois meses após o devastador terremoto que assolou o Haiti, em 12 de janeiro, a FAO e a CARE (organização humanitária internacional) lançaram conjuntamente o alerta sobre o risco de uma crise de alimentação nacional. “Esta é uma crise escondida, mas onipresente, que afetou todos os lugares do país”, advertiu Dick Trenchard, coordenador de avaliações da FAO no Haiti. “As zonas rurais mais afetadas são as que contam um maior nível de deslocamentos a partir de Porto Príncipe e as zonas circundantes, especialmente Artibonite a oeste e Grand’Anse, ao sul”, diz.
As avaliações de emergência realizadas pela FAO e seus sócios no grupo da ONU revelaram que as famílias anfitriãs que acolhem as pessoas deslocadas estão gastando suas escassas poupanças para alimentar os recém-chegados e consumido suas reservas de alimentos. Em muitos casos eles são obrigados a comer as sementes que tinham armazenado para a próxima temporada e a comer e vender seu rebanho, em particular suas cabras.
“Vemos indícios claros de que a população recorre a estratégias preocupantes e insustentáveis para tratar de ajudar as 500 mil pessoas que se estima tenham emigrado para as zonas rurais e a outros núcleos urbanos pequenos depois do terremoto”, afirmou Trenchard. “A principal temporada de plantio – que contempla mais de 60% da produção agrícola anual – começa agora”, disse Jean Dominique Bodard, especialista da CARE em segurança alimentar de emergência. “Se as famílias anfitriãs não tiverem meios para comprar sementes ou outras formas de obter sementes de qualidade será um desastre para elas”, diz Bodard.
“Este círculo vicioso conta com outro componente. Devido a falta de dinheiro muitos agricultores não poderão contratar trabalhadores para o plantio. Como conseqüência os trabalhadores não ganharão dinheiro para alimentar suas famílias e o plantio não se realizará como se toda a mão estivesse disponível. No setor rural os agricultores necessitam de dinheiro para comprar sementes para a próxima safra e os preços dos alimentos subiram 10% depois do terremoto. Um indicação de que o pior ainda está por vir.
Uma solução imediata poderia ser a aplicação do programa “dinheiro por trabalho” ao setor agrícola. Trata-se de um programa impulsionado pela FAO para a limpeza dos canais de irrigação em Léogâne e a CARE trabalhará para aumenta-lo em até 4 mil pessoas nos próximos dias. “O segmento agrícola precisa de dinheiro imediatamente, uma vez que a distribuição de alimentos pode ajudar a aliviar o sofrimento causado pelo desastre, mas para isso os agricultores precisam investir e recobrar sua autonomia”.
O programa “dinheiro por trabalho” serve como impulso indispensável num momento crucial em que as pessoas estão desesperadas para retomar o controle de suas vidas e proporcionará uma injeção de recursos muito necessária nos mercados rurais que se desmoronaram depois do terremoto.
Janeiro e fevereiro confirmaram as expectativas feitas a este repórter no final de 2009 por Pedro Camargo Neto, das indústrias exportadoras de carne suína; Roberto Gianetti da Fonseca, dos exportadores de carne bovina; e por Mário Lanzmaster, presidente da Cooperativa Aurora, de Chapecó, SC. Os embarques de carnes bovina, de frango e de suínos totalizaram quase US$ 1,5 bilhão, bem acima da fatura em 2009. A primeira obteve US$ 506 milhões, 47% a mais do que no ano passado. A de frango, à frente, rendeu US$ 737 milhões, 20% acima de 2009; e a de suínos, US$ 157 milhões, bem superior aos US$ 65 milhões de 2009.
Outra boa notícia a espalhar otimismo nos dois primeiros meses deste ano veio da África do Sul, considerado um país emergente e detentor de um mercado promissor, que liberou a compra de carne bovina desossada e maturada de zonas livres de febre aftosa do Brasil. No final de fevereiro, essa reação no comércio externo começou a virar tendência, já que os navios continuavam partindo com carga considerável.
A África do Sul não comprava carne bovina há quatro anos. O país, que é a sede da Copa do Mundo deste ano, deixou, no entanto, a carne de porco na fila, o que fez surgir reclamações de Pedro de Camargo Neto. Ele acha que o governo brasileiro precisa ser mais incisivo, pois o embargo já dura cinco anos. “A carne suína foi vitima da bovina, quando do ressurgimento da aftosa no país em 2005, o que levou a África do Sul a paralisar as compras”.
A Sara Lee, empresa global de fabricação e comércio de produtos de consumo de alta qualidade, ampliou em 2009 a sua liderança como a maior compradora mundial de café certificado com o selo Utz Capeh (Utz Certified) – que tem por objetivo produzir cadeias sustentáveis de abastecimento agrícola – superando a sua meta de 26.500 toneladas.
Em 2010, a companhia pretende chegar ainda mais longe e comprará mais café sustentável do que em qualquer outro ano, alcançando 40 mil toneladas. “Na Sara Lee temos muito orgulho de como ajudamos a tornar o setor cafeeiro tradicional mais sustentável”, afirmou o CEO da divisão internacional de bebidas e panificação da Sara Lee, Frank van Oers.
“A nossa visão em longo prazo é a de comprar todo o nosso café de forma sustentável, e a cada ano estamos elevando o nosso nível. O compromisso para 2010 representa um passo importante rumo a esse objetivo”, conclui.
A empresa, que é a terceira maior torrefadora do mundo, trabalha em parceria com o Utz Certified desde 2004, comprando café e ajudando os produtores agrícolas a obterem a certificação, gerando um importante impacto positivo sobre a condição de vida dos produtores agrícolas. A preocupação da Sara Lee com as condições sociais dos agricultores é tamanha que a companhia criou a sua própria fundação em 2002, a Douwe Egberts Foundation, que atua na melhoria das condições de vida especialmente de pequenos agricultores nos principais países produtores de café.
Os produtores de soja e de milho de Mato Grosso são os primeiros a conseguir liminar suspendendo a cobrança do Funrural (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural). Foi concedida pela Justiça Federal do estado, atendendo a uma ação movida pela Associação dos Produtores de Milho e Soja de Mato Grosso (Aprosoja). É a primeira liminar a ser concedida depois que decisão unânime do STF (Supremo Federal Tribunal) julgou inconstitucional a cobrança referente a 2,5% da comercialização de produtos agropecuários ao Funrural.
A liminar, concedida pelo juiz José Pires da Cunha, da 5ª Vara de Mato Grosso, permite que os agricultores passem a contribuir com a Previdência com base na folha de pagamento, e não sobre a receita bruta da comercialização. Detalhe: a decisão vale somente para os produtores de soja e milho de Mato Grosso, mas abre jurisprudência para outras ações, segundo informações de advogados tributaristas.
E a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), a Associação dos Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul, entre outras entidades que representam os produtores, prometem entrar com ações para brecar o recolhimento do Funrural e, paralelamente, pedir o ressarcimento do tributo com correção monetária.
Segundo a Aprosoja, a medida pode acarretar uma economia média de R$ 150 milhões anuais. Glauber Silveira, presidente da entidade, informa que, somente no caso da soja, a decisão da Justiça mato-grossense deverá propiciar uma redução média de 25 reais por hectare. Em 2009, os plantadores de soja alcançaram uma receita bruta de R$ 11,35 bilhões, diz Silveira. Ele explica que se recolhimento é feito para a Previdência Social, não justifica que o tributo seja cobrado sobre a receita bruta, ao invés de incidir sobre a folha de pagamento.
Até o momento não se sabe se o governo irá recorrer. Advogados, entre eles o gaúcho Ricardo Alfonsín, que representa plantadores de arroz e criadores de suínos do Rio Grande do Sul, acreditam que o governo não vai ficar parado.
Luciana Franco, editora-assistente da revista Globo Rural, traz aqui as novidades e as tendências mundiais das commodities agrícolas e das cadeias do agronegócio.
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Sebastião Nascimento, editor, nasceu em São Luís do Paraitinga, onde desde a infância conviveu com as manifestações culturais e folclóricas ricas e ecléticas. Se tivesse amealhado um pouquinho de dinheiro, gostaria de ter criado umas vaquinhas leiteiras e algumas cabras também de leite. Quem sabe um dia dá.sjunior@edglobo.com.br